terça-feira, 30 de dezembro de 2014

De repente

De repente nos tornámos um,
unha e carne.
Amámos mais do que pensámos amar,
esperámos mais do que pensámos 
conseguir esperar,
De repente nos tornámos um,
um no outro,
e da paixão veio o amor
de forma tão silenciosa,
sem forçar a sua estadia fez-se
hospede permanente.
De repente o amor tornou-se dono
dos nossos corpos e nos fez um.

A. Luz

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O silêncio das palavras

Escrevi o silêncio das palavras que vi brotar em teus pensamentos,
Teus lábios mudos, teus ouvidos surdos
Sem poder escutar as mudas palavras vindas do teu olhar,
Escrevi palavras, frases, versos violentos
Lançados ao vento os poemas que te escrevi,
me redimi, fugi de mim para não sentir
o que senti...
A tristeza invade o meu ser sem perceber,
fazes-me querer ter de volta o tempo que não volta.
Porque não voltas tu?
Encerrado no mesmo lugar, na mesma casa,
Na mesma ferida que não passa,
na dor que despedaça.
Um homem e seu violão que
despedaçou o meu coração.      

A. Luz

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Vi o arco-íris

Vi o arco-íris da janela do comboio
que me levava até o Rossio,
lembrei-me da promessa e
do desafio.
Em Campolide pessoas apressadas
Corriam do frio.
Cachecóis, sobretudos, casacos longos,
Pessoas que tossiam ditongos.
É chegado o inverno.
O velho sentado na calçada
De roupa rasgada,
Passa frio e fome,
Em frente, 
no Nicola,
Todo rico come.
Não sei o que é a fome,
Nasci e tive o que comer,
Mas sei o que é ter
Uma comida sacrificada,
suada, contada..
Abençoada mãe,
Trabalhadora e guerreira.
Neste mundo tudo vira brincadeira.
A hipocrisia faz farinha com
A momentânea alegria.
Festejam-se festas pagãs
Que dizem ser cristãs.
O padre veste a batina e
celebra a missa.
No final do dia
já ninguém se lembra do sermão.
Preocupados em demasia com
Futilidades, desgraça e vaidade.
O Amor já ninguém prega,
Mata-se o filho, espanca-se o pai,
Prostitui-se a mulher.
A verdade ninguém quer.
Pobre das almas que choram,
Das vidas que se perdem,
Do  mundo que doente morre.
Que um dia possamos acordar
Dessa embriaguez profunda,
desse coma colectivo,
acordar para o outro e ouvir
as palavras do Rei.
Acordar da idolatria,
Rejeitar essa Maria.
Parar de olhar para o
próprio umbigo,
ressuscitar, 
sair do jazigo.
Nascer de novo,
deixar de julgar
E o próximo Amar.

A. Luz

sábado, 15 de novembro de 2014

Viagem pelo Tejo

Saio da fluvial do Barreiro e
Deixo as pequenas praias de areia escassa,
Acariciadas pelas águas doces do rio.
Contemplo as chuvas que atiradas
Do céu cinzento beijam
os barcos atracados no cais.
O meu já lá vai
E avista Lisboa,
Linda, 
que de braços estendidos
Acolhe a minha chegada.
Tenho a alma embalada pelo balançar
Do barco que percorre o corpo do Tejo.
A chuva acabou de cessar e
O nevoeiro parece que veio para ficar.
A neblina mistifica a esplendorosa cidade,
Cobre os telheiros e as chaminés,
Faz desaparecer a outra margem,
Já não avisto as praias nem a areia.
O embate no cais faz com que pare a poesia.
De volta à realidade,
Sem perder a fantasia...

A.Luz


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Ele e Ela

Da janela que me concedeste ó Lisboa,
vejo-te despida..
Lá vai ele pela avenida,
vestido de tédio, penteado de morte,
calçado de pouca sorte.
no teu corpo vislumbram
monumentos e saber.
Pelas ruas altas ele desfila,
procura no intento da dor sentir
menos ardor.
Gosto dos teus vestidos,
ora curtos ora compridos.
Ele do Cais do Sodré,
onde todas as manhãs bebe um copo
de bagaço e um café.
Pergunto-me o que irás tocar esta noite,
um bom jazz, talvez um blues,
ou quem sabe um fado malandrinho.
Seja o que for,
espero  que o jantar venha acompanhado
de um bom vinho.
Ouvi dizer que janta hoje sozinho,
não lhe agradam as novas  moças,
fáceis, que por bares e noites se perdem.
Quer algo simples e verdadeiro. 
Já vai a metade do dia e ainda
não arranjou companhia,
vai precisar que o guies.
Bem sei que tens fama de casamenteira
não fosse isso verdade estaria eu solteira.
Em brincadeiras enganas turistas,
contratas fadistas,
que em Alfama
imortalizam o teu património.
Ele gere os dias sempre da mesma maneira,
não é patriota 
mas sabe as cores da bandeira,
é poeta mas não escreve sempre,
precisa de algo que o inspire.
Talvez possas arranjar-lhe com a rapariga
que serve no café do Sr. Manuel,
ou então com a que vende jornais
no quiosque do cais.
Seja como quiseres,
só peço que não o arranjes
com muitas mulheres,
não o quero ver desgraçado.
Talvez um amigo seja melhor ideia,
no fundo todos precisamos de um.
São sete horas da tarde,
e ele junto ao rio vê o sol partir.
Do seu lado esquerdo,
um corpo parado,
focado no momento.
Naquele instante 
ele vira a face e vê,
como que um anjo sossegado,
um olhar dócil e distante,
cabelos de cor vibrante,
com um vestido até aos joelhos
da cor da areia da praia,
por instantes sentiu o coração vibrar.
Vi-te conduzi-lo,
e sem que percebesse
já estava do seu lado.
Cordialmente conversaram,
ela gostou do seu ar sério,
ele do seu sorriso timidamente
encantador.
Ao chegar da noite,
cada um se dirigia para o seu lado.
Dos muitos mistérios que tens,
as tuas ruas, vielas e avenidas,
de algum modo acabam por se encontrar
e em um desses muitos encontros, ambos,
arrependidos por não prometerem
um ao outro um reencontro,
ao virar de uma esquina encontraram-se.
Sorriram,
ele estendeu-lhe o braço,
que cordialmente ela aceitou,
e seguiram deambulando pela cidade.
Há que felicidade!

A. Luz





segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Querida

Querida, Chama-me querida
aos cinquenta anos de idade,
quando já não há beleza
mas maturidade.
Se de facto me amas
os anos da nossa velhice
serão mais meigos que
a nossa meninice.
E nos lembraremos de quando
jovens sonhámos,
rimos, brigámos e
fizemos as pazes.
De quando caímos
e magoados fomos o apoio
um do outro para nos levantarmos.
De quando lavei as tuas feridas
e tu as minhas.
Sempre nos recordaremos
do caminho percorrido,
do castelo e das muralhas
construídas em torno do mesmo,
de cada pedra esculpida,
de cada momento da nossa vida.
Chama-me querida.

A. Luz

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O Tempo

Gostaria de saber que histórias o Tempo
tem para contar.
Do que viu e ouviu,
do que existiu e deixou de existir.
Da História só o Tempo sabe a veracidade,
dos grandes heróis da antiguidade e
Do Deus Senhor,
Pois o Tempo não passa
Mas renova-se a cada morte e vida.
É ele que, sem descendentes
nem precedentes, sabe que na verdade
o tempo não é mais que uma ilusão,
que nos faz correr para o vento
e achar que é no nosso tempo
que tudo se irá fazer e ser.
Então o Tempo prova
que tudo é vaidade e passará,
mas o EU SOU
permanecerá por toda a eterna vida…

A. Luz

sábado, 20 de setembro de 2014

O esquecimento

O esquecimento é inevitável,
a não ser que nos façamos lembrar.
À medida que o tempo escorre
pelas paredes do infinito,
o Homem procura viver a sua
eternidade o quanto pode.
É inevitável o esquecimento da primeira
palavra dita ou da primeira lágrima.
O ser humano dá provas de que é inevitável
o esquecimento das primeiras coisas,
instantes, sensações pois,
tudo se torna primeiro à medida que
o tempo passa se o primeiro é esquecido
quando permanece demasiado tempo
no tempo sem ser lembrado.
Por vezes acabamos por nos esquecermos
de nós mesmos, não porque queremos
mas por nos deixar-mos.
Quando nos deixamos e vivemos outras vidas,
permanecemos no erro,
mentimos, traímos, julgamos e nos acomodamos,
corroemos o nosso ser,
matamos tudo o que um dia fomos por instantes
e que por várias razões ou circunstâncias
deixámos de ser.
Quando o Homem perde a humanidade
de pouco valem as suas leis.

A. Luz

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Hoje já não chove

Hoje já não chove.
Ouço o Inverno chegar de mansinho,
pequenas chuvas, gotas que se derramam pelo chão.
Cheira a terra molhada.
Sinto o cheiro do Inverno enquanto caminho,
as gotas de orvalho enchem a vegetação lisboeta,
o sol espreguiça os seus longos braços
estendendo os seus cabelos dourados
pelo horizonte, que estendido goza
de perfeita alegria e deleite.
Os passeios escorregadios fazem abrandar
a correria na cidade,
brilhando o sol brilham também
as faces acinzentadas do povo.
São boas as chuvas d' Inverno,
que lavam as ruas,
limpam as calçadas e
banham as almas.

A. Luz

sexta-feira, 7 de março de 2014

Quanto de ti é...

Quanto de ti é sal, é terra é mar..
quanto de ti é sede por saciar...
Quanto de ti transborda ao caminhar,
quanto de ti é fome por acabar...
Quanto de ti é guerra, quanto de ti esfola e mata,
quanto de ti é ouro e prata...
Quanto de ti é quanto
quando o quanto já não basta...

A. Luz