Da janela que me concedeste
ó Lisboa,
vejo-te despida..
Lá vai ele pela avenida,
vestido de tédio, penteado
de morte,
calçado de pouca sorte.
E no teu corpo vislumbram
monumentos e saber.
Pelas ruas altas ele
desfila,
procura no intento da dor
sentir
menos ardor.
Gosto dos teus vestidos,
ora curtos ora compridos.
Ele do Cais do Sodré,
onde todas as manhãs bebe um
copo
de bagaço e um café.
Pergunto-me o que irás tocar
esta noite,
um bom jazz, talvez um
blues,
ou quem sabe um fado
malandrinho.
Seja o que for,
espero que o jantar venha acompanhado
de um bom vinho.
Ouvi dizer que janta hoje
sozinho,
não lhe agradam as novas moças,
fáceis, que por bares e
noites se perdem.
Quer algo simples e
verdadeiro.
Já vai a metade do dia e
ainda
não arranjou companhia,
vai precisar que o guies.
Bem sei que tens fama de
casamenteira
não fosse isso verdade
estaria eu solteira.
Em brincadeiras enganas
turistas,
contratas fadistas,
que em Alfama
imortalizam o teu
património.
Ele gere os dias sempre da
mesma maneira,
não é patriota
mas sabe as
cores da bandeira,
é poeta mas não escreve
sempre,
precisa de algo que o
inspire.
Talvez possas arranjar-lhe
com a rapariga
que serve no café do Sr.
Manuel,
ou então com a que vende
jornais
no quiosque do cais.
Seja como quiseres,
só peço que não o arranjes
com muitas mulheres,
não o quero ver desgraçado.
Talvez um amigo seja melhor
ideia,
no fundo todos precisamos de
um.
São sete horas da tarde,
e ele junto ao rio vê o sol
partir.
Do seu lado esquerdo,
um corpo parado,
focado no momento.
Naquele instante
ele vira a
face e vê,
como que um anjo sossegado,
um olhar dócil e distante,
cabelos de cor vibrante,
com um vestido até aos
joelhos
da cor da areia da praia,
por instantes sentiu o
coração vibrar.
Vi-te conduzi-lo,
e sem que percebesse
já estava do seu lado.
Cordialmente conversaram,
ela gostou do seu ar sério,
ele do seu sorriso timidamente
encantador.
Ao chegar da noite,
cada um se dirigia para o
seu lado.
Dos muitos mistérios que
tens,
as tuas ruas, vielas e
avenidas,
de algum modo acabam por se
encontrar
e em um desses muitos
encontros, ambos,
arrependidos por não
prometerem
um ao outro um reencontro,
ao virar de uma esquina
encontraram-se.
Sorriram,
ele estendeu-lhe o braço,
que cordialmente ela
aceitou,
e seguiram deambulando pela
cidade.
Há que felicidade!
A. Luz