terça-feira, 21 de julho de 2015

Pensamento

E quando a realidade golpeia-nos
com os seus punhos,
retirando-nos o tempo da inocência,
do brilho da vida,
e com agressividade faz-nos tombar
e crescer nesse mesmo instante.
E se a infância é o consolo da vida,
que nos adoça com inocência,
brincadeira, despreocupação e
imaginação  os dias da nossa
mocidade.
E se a paixão não é exclusiva dos amantes
mas de todos os que se deixam cegar por ela,
seja numa amizade,
relação de cumplicidade,
ou entre dois corpos.
E quando despreocupados
deambulamos por esta vida
até que nos apercebemos
do nosso estado de inercia e
passividade
diante a agressividade das situações.
Quando entendemos que
tudo é vaidade e
nada somos,
que apenas somos
pequenos tijolos
de uma grandiosa construção e
isolados  de nada servimos.
E se toda a eternidade
em nós colocada
nos fosse revelada.
E se emudecesse-mos
diante a verdade,
aceitando a mentira com
passividade e conveniência...

A. Luz







terça-feira, 20 de janeiro de 2015

As palavras

Livre o pensamento, o ajuntar palavras
apenas um momento.
Ao som da liberdade
escreve-se a verdade crua
e despida de preconceitos.
As palavras que percorrem o caminho
das linhas, dos espaços brancos
rasgam-se em encantos,
são lidas com espantos,
saboreadas com sabor e dissabor,
lançadas com amor e desamor.
Cuido para que não perca o medo das palavras,
pois com ele vem o respeito
para que não se tornem vagas, ocas,
poucas, sem efeito...
Corro atrás do tempo que não volta,
daquilo que pouco importa,
vejo-me  solta e morta,
mergulhada em palavras, encharcada
em sentimentos,
desvairada em momentos...
Vejo-me viva,
nas verdadeiras palavras
por ti criadas,
no encontro entre
duas almas apaixonadas.
Encontro-me e agora vejo,
que tudo o que escrevi
foram palavras que um dia senti.

A. Luz

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O nevoeiro

O nevoeiro que engole a cidade de Lisboa
faz lembrar o seu passado.
De um rei que foi para a guerra
e por lá ficou,
Dos mitos e heróis,
De um povo encurralado,
obrigado a navegar,
atravessar o mar da duvida e do medo.
No desespero nasceu a coragem,
a bravura e esperança.
Mas a era da bravura torna-se passada
para um povo cujo medo se alastra
diante uma geração que se arrasta.

A. Luz

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

De repente

De repente nos tornámos um,
unha e carne.
Amámos mais do que pensámos amar,
esperámos mais do que pensámos 
conseguir esperar,
De repente nos tornámos um,
um no outro,
e da paixão veio o amor
de forma tão silenciosa,
sem forçar a sua estadia fez-se
hospede permanente.
De repente o amor tornou-se dono
dos nossos corpos e nos fez um.

A. Luz

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O silêncio das palavras

Escrevi o silêncio das palavras que vi brotar em teus pensamentos,
Teus lábios mudos, teus ouvidos surdos
Sem poder escutar as mudas palavras vindas do teu olhar,
Escrevi palavras, frases, versos violentos
Lançados ao vento os poemas que te escrevi,
me redimi, fugi de mim para não sentir
o que senti...
A tristeza invade o meu ser sem perceber,
fazes-me querer ter de volta o tempo que não volta.
Porque não voltas tu?
Encerrado no mesmo lugar, na mesma casa,
Na mesma ferida que não passa,
na dor que despedaça.
Um homem e seu violão que
despedaçou o meu coração.      

A. Luz

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Vi o arco-íris

Vi o arco-íris da janela do comboio
que me levava até o Rossio,
lembrei-me da promessa e
do desafio.
Em Campolide pessoas apressadas
Corriam do frio.
Cachecóis, sobretudos, casacos longos,
Pessoas que tossiam ditongos.
É chegado o inverno.
O velho sentado na calçada
De roupa rasgada,
Passa frio e fome,
Em frente, 
no Nicola,
Todo rico come.
Não sei o que é a fome,
Nasci e tive o que comer,
Mas sei o que é ter
Uma comida sacrificada,
suada, contada..
Abençoada mãe,
Trabalhadora e guerreira.
Neste mundo tudo vira brincadeira.
A hipocrisia faz farinha com
A momentânea alegria.
Festejam-se festas pagãs
Que dizem ser cristãs.
O padre veste a batina e
celebra a missa.
No final do dia
já ninguém se lembra do sermão.
Preocupados em demasia com
Futilidades, desgraça e vaidade.
O Amor já ninguém prega,
Mata-se o filho, espanca-se o pai,
Prostitui-se a mulher.
A verdade ninguém quer.
Pobre das almas que choram,
Das vidas que se perdem,
Do  mundo que doente morre.
Que um dia possamos acordar
Dessa embriaguez profunda,
desse coma colectivo,
acordar para o outro e ouvir
as palavras do Rei.
Acordar da idolatria,
Rejeitar essa Maria.
Parar de olhar para o
próprio umbigo,
ressuscitar, 
sair do jazigo.
Nascer de novo,
deixar de julgar
E o próximo Amar.

A. Luz