sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Ele e Ela

Da janela que me concedeste ó Lisboa,
vejo-te despida..
Lá vai ele pela avenida,
vestido de tédio, penteado de morte,
calçado de pouca sorte.
no teu corpo vislumbram
monumentos e saber.
Pelas ruas altas ele desfila,
procura no intento da dor sentir
menos ardor.
Gosto dos teus vestidos,
ora curtos ora compridos.
Ele do Cais do Sodré,
onde todas as manhãs bebe um copo
de bagaço e um café.
Pergunto-me o que irás tocar esta noite,
um bom jazz, talvez um blues,
ou quem sabe um fado malandrinho.
Seja o que for,
espero  que o jantar venha acompanhado
de um bom vinho.
Ouvi dizer que janta hoje sozinho,
não lhe agradam as novas  moças,
fáceis, que por bares e noites se perdem.
Quer algo simples e verdadeiro. 
Já vai a metade do dia e ainda
não arranjou companhia,
vai precisar que o guies.
Bem sei que tens fama de casamenteira
não fosse isso verdade estaria eu solteira.
Em brincadeiras enganas turistas,
contratas fadistas,
que em Alfama
imortalizam o teu património.
Ele gere os dias sempre da mesma maneira,
não é patriota 
mas sabe as cores da bandeira,
é poeta mas não escreve sempre,
precisa de algo que o inspire.
Talvez possas arranjar-lhe com a rapariga
que serve no café do Sr. Manuel,
ou então com a que vende jornais
no quiosque do cais.
Seja como quiseres,
só peço que não o arranjes
com muitas mulheres,
não o quero ver desgraçado.
Talvez um amigo seja melhor ideia,
no fundo todos precisamos de um.
São sete horas da tarde,
e ele junto ao rio vê o sol partir.
Do seu lado esquerdo,
um corpo parado,
focado no momento.
Naquele instante 
ele vira a face e vê,
como que um anjo sossegado,
um olhar dócil e distante,
cabelos de cor vibrante,
com um vestido até aos joelhos
da cor da areia da praia,
por instantes sentiu o coração vibrar.
Vi-te conduzi-lo,
e sem que percebesse
já estava do seu lado.
Cordialmente conversaram,
ela gostou do seu ar sério,
ele do seu sorriso timidamente
encantador.
Ao chegar da noite,
cada um se dirigia para o seu lado.
Dos muitos mistérios que tens,
as tuas ruas, vielas e avenidas,
de algum modo acabam por se encontrar
e em um desses muitos encontros, ambos,
arrependidos por não prometerem
um ao outro um reencontro,
ao virar de uma esquina encontraram-se.
Sorriram,
ele estendeu-lhe o braço,
que cordialmente ela aceitou,
e seguiram deambulando pela cidade.
Há que felicidade!

A. Luz





segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Querida

Querida, Chama-me querida
aos cinquenta anos de idade,
quando já não há beleza
mas maturidade.
Se de facto me amas
os anos da nossa velhice
serão mais meigos que
a nossa meninice.
E nos lembraremos de quando
jovens sonhámos,
rimos, brigámos e
fizemos as pazes.
De quando caímos
e magoados fomos o apoio
um do outro para nos levantarmos.
De quando lavei as tuas feridas
e tu as minhas.
Sempre nos recordaremos
do caminho percorrido,
do castelo e das muralhas
construídas em torno do mesmo,
de cada pedra esculpida,
de cada momento da nossa vida.
Chama-me querida.

A. Luz

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O Tempo

Gostaria de saber que histórias o Tempo
tem para contar.
Do que viu e ouviu,
do que existiu e deixou de existir.
Da História só o Tempo sabe a veracidade,
dos grandes heróis da antiguidade e
Do Deus Senhor,
Pois o Tempo não passa
Mas renova-se a cada morte e vida.
É ele que, sem descendentes
nem precedentes, sabe que na verdade
o tempo não é mais que uma ilusão,
que nos faz correr para o vento
e achar que é no nosso tempo
que tudo se irá fazer e ser.
Então o Tempo prova
que tudo é vaidade e passará,
mas o EU SOU
permanecerá por toda a eterna vida…

A. Luz