Vi o arco-íris da janela do comboio
que me levava até o Rossio,
lembrei-me da promessa e
do desafio.
Em Campolide pessoas apressadas
Corriam do frio.
Cachecóis, sobretudos, casacos longos,
Pessoas que tossiam ditongos.
É chegado o inverno.
O velho sentado na calçada
De roupa rasgada,
Passa frio e fome,
Em frente,
no Nicola,
Todo rico come.
Não sei o que é a fome,
Nasci e tive o que comer,
Mas sei o que é ter
Uma comida sacrificada,
suada, contada..
Abençoada mãe,
Trabalhadora e guerreira.
Neste mundo tudo vira brincadeira.
A hipocrisia faz farinha com
A momentânea alegria.
Festejam-se festas pagãs
Que dizem ser cristãs.
O padre veste a batina e
celebra a missa.
No final do dia
já ninguém se lembra do sermão.
Preocupados em demasia com
Futilidades, desgraça e vaidade.
O Amor já ninguém prega,
Mata-se o filho, espanca-se o pai,
Prostitui-se a mulher.
A verdade ninguém quer.
Pobre das almas que choram,
Das vidas que se perdem,
Do mundo que doente morre.
Que um dia possamos acordar
Dessa embriaguez profunda,
desse coma colectivo,
acordar para o outro e ouvir
as palavras do Rei.
Acordar da idolatria,
Rejeitar essa Maria.
Parar de olhar para o
próprio umbigo,
ressuscitar,
sair do jazigo.
Nascer de novo,
deixar de julgar
E o próximo Amar.
A. Luz
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